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Motoristas do DF lidam com prejuízos da gasolina cara e, também, adulterada

  Além de encarar o aumento generalizado do preço dos combustíveis no país — com custo que chega a R$ 7,59 em alguns estabelecimentos da cap...

 

Além de encarar o aumento generalizado do preço dos combustíveis no país — com custo que chega a R$ 7,59 em alguns estabelecimentos da capital federal —, os consumidores têm outra preocupação: a qualidade do produto. A cada quatro dias deste ano, em média, três postos foram denunciados por vender o insumo adulterado no DF, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). De janeiro a 31 de setembro, a autarquia registrou 204 reclamações desse tipo contra empresas revendedoras. Em todo o ano passado, a quantidade foi igual a 268 (leia Denúncias).

A gasolina comum vendida nos postos reúne componentes químicos, mas uma das diferenças entre a de qualidade e a modificada é a quantidade de álcool adicionada à mistura. Especialista em manutenção automotiva na oficina Rogers Auto Service, Josiel Oliveira, 21 anos, afirma que existem dois tipos desse combustível: o formulado e o adulterado. O primeiro tem até 27% de álcool anidro — sem água —, produto tem papel antidetonante. "Faz com que haja a queima perfeita", comenta. No caso da segunda, adiciona-se álcool hidratado ao composto — que já havia recebido etanol.

Alguns dos solventes causam danos irreparáveis aos veículos e podem derreter componentes do sistema de injeção de combustível do carro, gerar vazamento de gasolina, perda de resíduos da borracha que veda peças, bem como entupimento dos bicos injetores. "O prejuízo é grande, ainda mais para donos de carros importados, que têm quatro peças como essa. Cada uma custa cerca de R$ 2 mil. Nos carros populares, o preço fica em torno de R$ 500", destaca Josiel.

Na maioria dos casos de fraude com etanol, as revendedoras inserem água em quantidade superior à permitida — 6% a 7% da composição do produto. Também há registro de mistura de álcool hidratado ou adição de metanol à bomba — químico tão bom quanto o combustível, mas extremamente perigoso e tóxico. O resultado da adulteração gera problemas graves para o veículo, como perda de força do motor; consumo alto; falhas ao dar partida, principalmente pela manhã, quando o motor está frio; e, em situação extrema, quebra do maquinário. O custo com os reparos pode chegar a R$ 80 mil, a depender do automóvel.

Dono da Ideal Soluções Automotivas, Sandro Ferrari, 55, comenta que as cerca de 200 denúncias registradas junto à ANP neste ano não batem com a quantidade de clientes que procuram a oficina dele para resolver problemas causados por combustíveis adulterados. Ele lembra que o problema, normalmente, aparece em médio e longo prazo; por isso, e pelo medo de não conseguir provar, muitos consumidores deixam de denunciar.

"Um posto tem capacidade para 20 mil litros de gasolina, aproximadamente. O empresário compra da distribuidora 18 mil e mistura outros 2 mil litros de um aditivo mais barato. Geralmente, o motor não consegue queimar esse combustível. Então, o produto fica no tanque, e o problema aparece depois da terceira vez que o motorista abastece com o adulterado. São raros os casos em que o carro apresenta problema após o atendimento", explica Sandro Ferrari.

Suspeitas

A administradora Gabriella Lacerda de Oliveira, 34, precisou desembolsar R$1,2 mil por causa da má qualidade do combustível de um posto de gasolina em Samambaia Sul. Ela conta que abasteceu três vezes no estabelecimento — de bandeira famosa — e que o produto estava R$ 0,30 mais barato que a média. "A reserva do meu carro estava acabando, e fui lá. Na hora, o carro não pegou. Fiquei tentando dar partida, e outro cliente falou que o mesmo aconteceu com ele", relata.

Depois de alguns minutos, Gabriella conseguiu ligar o veículo e levá-lo a uma oficina, onde ficou constatado que o problema era o combustível. "O mecânico fez algumas perguntas e, na hora, descobriu o que era. Precisei trocar uma peça que estragou. Depois disso, comecei a abastecer em um local de confiança e nunca mais tive problemas", completa. A consumidora não registrou denúncia na ANP por acreditar não ter provas, pois os responsáveis pelo posto negaram que o produto estivesse adulterado.

Presidente Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e de Lubrificantes do Distrito Federal (Sindicombustíveis-DF), Paulo Tavares comenta que a entidade não faz avaliações de controle de qualidade do produto nos postos, mas alerta que o consumidor deve desconfiar de valores muito baixos. "Se o litro da gasolina é vendido a R$ 6,50 para os estabelecimentos e eles revendem por um valor muito baixo, (os empresários) não estariam tendo lucro. Então, se estiver muito próximo do valor (de compra pela empresa), o cliente pode desconfiar de que há algo errado", orienta.

Advogada especialista em direito do consumidor, Taynara Tiemi Ono enfatiza que os motoristas também precisam se atentar para eventuais abusos de preços. É preciso verificar, segundo ela, se o valor praticado por determinado estabelecimento se justifica e se está em consonância com a média cobrada na região. "Caso o cliente se depare com um aumento desproporcional, é possível apresentar reclamação junto ao Procon, que vai apurar os fatos. Confirmando se tratar de um ato abusivo, o instituto vai adotar as medidas cabíveis", frisa.

Denúncias

Reclamações contra postos revendedores de combustíveis do Distrito Federal registradas junto à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)

Por: Correio Braziliense